“O Caos
O Nada
Para compreender as engrenagens regentes do infinito e das possibilidades, o ser que porta inteligente curiosidade, deve primeiro, desmantelar-se. A si, e ao todo. Como uma criança no auge de sua vontade de aprender, desmonta um rádio que não o pertence, sob risco de surra, simplesmente para ver de que forma vibram e saltam seus mecanismos.
Deve se voltar ao primordial, ao início, a aquilo que permite que a matéria e a energia vaguem por aí em constante transformação. O Nada. Aquele que, como uma folha branca na mão de um escritor, permite a obra da criação, simplesmente por dar a dádiva das infinitas possibilidades de invenção.
Antes d’O Tudo, veio O Nada, o vácuo pacífico onde ainda hoje vaga toda a parte palpável e não palpável do universo. Devemos ao Nada o respeito por abdicar sua própria inexistência, para nos dar a chance de experimentar das melhores sensações, essas padronizadas pelo modelo regente de Todo; e simplesmente existir.
Para respeitar o Nada e seu nobre ato de compaixão, deve-se saber de um conceito, que é a única verdade absoluta: “Nada existe”. Parece uma divagação proveniente de uma bebedeira numa data especial ou a frase favorita de um niilista desiludido, mas é o que todo ser prudente deveria saber.
Quando O Nada nos deu a dádiva da existência, jogou-nos em uma ilusão onde o mesmo não existia, quando na verdade, este preenche cada lacuna infértil, que no começo dos tempos, matéria e energia foram incapazes de produzir qualquer infinitude de coisa.
Se um dia o vácuo foi a única existência, então nada realmente é válido. É um princípio primordial, mas que deve ser entendido com cuidado, porque, seu mau uso pode arrancar da vida um sentido, paradoxalmente a finalidade do entendimento disso, que é, dar-lhe um motivo.
Sobre Purificar-se
Sob a luz de que nada realmente é válido, é hora de lavar a mente do agraciado. Entendendo que no micro contexto que se insere seu Ego e seu Eu, tudo que tenta reger é contrário, é contraditório e é bolado por outros Egos e Eus, que como é de se esperar, debatem-se tentando escalar por entre as cabeças alheias.
O primeiro passo prudente na purificação pode ser feito neste exato instante; não acredite nesse livro, dê a sua mente a liberdade de vagar tola por um mundo caótico. Dê a si, a graça da sorte e a maravilha que são as possibilidades. Leia cada linha imprudente desta obra com dúvida e desdem, só assim poderá alcançar-se um dia o Ego que um ser humano correto deveria ter.
Destrua seus conceitos, desacredite nas suas verdades, cegue-se as suas convenções, liberte-se de tudo que automatiza seus atos. Religião, método, sociedade, valor, moral, engajamento. Dê a todos esses buracos negros engolidores de liberdade o castigo da indiferença. Mate seus líderes e esqueça os mártires, basear-se no inatingível é o ato do homem que ama a si e a sua raça. Demita seus ídolos, cultive seus fãs.
Tolice daquele que agora arregala os olhos com distinto espanto, e taxa de subversivo as palavras ditadas a pouco. Este sim, está entalado até o pescoço no modelo de vida que lhe arranjaram antes mesmo de residir no testículo de seu pai.
Não viverá jogado a incerteza o que se propõem a executar o exercício, pois o mesmo só durará um instante, o instante em que sua mente sabe que é livre. Peço aquele que não pôde sentir que esqueça tudo e cuide de seu futuro, pra que tenha um leito de morte com a mínima honra possível.
Centelha da Compreensão Universal. É a forma que nomeio essa sensação que sou impotente quando se trata de descreve-la em palavras. É simplesmente saber que se sabe de tudo. Mas é tão rápido quanto a vida humana em relação ao cosmo. Ínfima.
Disseram os budistas há muito tempo, alcançar e contemplar A Centelha a partir exercícios de meditação, mas tiro destes o mérito por creem em coisas maiores que si mesmo se não o próprio Todo. O momento de paz não é ingrediente imprescindível pra chegar A Centelha. Ela pode nascer do desespero, da raiva, da sonolência, do delírio e até da própria paz. Ela só não pode chegar ao burros, a esses A Centelha corre longe.
Sobre Macular-se
Depois de todo o trabalho limpando-se pra poder enxergar a si mesmo de baixo de tanta lama, é hora de lambuzar-se novamente. Não se pode sair por aí dizendo que alcançou a revelação universal, inicialmente porque essa não existe e depois porque lhe internariam em um hospício se você não morresse de fome antes. Tudo que precisava era ter a visão de sua pele por baixo da camada espessa de lama. Nada mais. Visitar a si mesmo no mínimo uma vez. Está assim um passo à frente de bilhões.
Não poderá fugir do que o Todo lhe reservou para desenhar seu livro, mas poderá escrever nele o que bem entender, se assim, lutar contra a cegueira e contra a mão que tenta lhe lecionar a escrita, da qual maneira mais entende por aceitável. É hora de se inserir no mundo dos sujos, no seu mundo, esse é seu lugar; e já que há tanta merda pra todos os lados, não seria indiscrição sujar mais.
Negligenciar o corpo é a tolice dos fracos que se camuflam com falsa inteligência. Atrofiar a ferramenta de contato com o mundo real para elevar-se de maneira conveniente apenas no plano mental é um ato restringido aos asnos. Não é sobre estética ou perfeição, é sobre experiência e amor próprio.
“Pelos portões do meu reino não entram os fracos, nos portões do meu reino os feios são barrados e a pena, humildade, medo e submissão são drogas que proíbo o tráfico. Com pena de expulsão. E pra fora das paredes existe um deserto, onde o que definha e o que está em estado mais avançado de putrefação é digno da falsa atenção e do direito de ser salvo. Tomaram muito sol na cabeça e agora cultuam valores inferiores. O que houve nesse deserto? O que ouves? Só lamúrios.”
O Álibe
Pra quem pôde sentir A Centelha, pra quem pôde entender que O Nada é precedente ao Todo, virá o escudo mais forte. Escudo esse que é incapaz de proteger a ti de pau e pedra, mas que o mantem longe do golpe mais destrutivo que se tem conhecimento. O golpe que tu próprio desfere contra ti. Um golpe abstrato que vem de dentro, que infecta e corroe. Sua ferramenta contra o vacilo e contra o ato carente de nobreza que é hesitar frente ao desejo e necessidade. Seu Álibe que lhe cobre internamente dos dedos que apontam com raiva pra um Ego que se massageou, e que foi verdadeiro consigo mesmo. O Nada.
Deixe o uso demasiado do Álibe para os inexperientes, para os não estrategistas, para os iniciantes. O aço desse escudo não vai se desgastar se o manter sob manutenção, nem vai deixar que avariem sua consciência; todavia, como todo bom remédio, há de ter um terrível efeito colateral, não será esse que fugirá do balancete de funcionalidade. Com certeza não.
O abuso do Álibe, que é inevitavelmente interno, o levará a pelejar a procura de companheiros e confiança, porque quando o Álibe te proteje de ti mesmo, não lhe proteje do próximo. Nem evita que o Ego desse vá doer, se no contexto estiver escrito que irá.
Não se trata de pena, nem de hesitação, mas de racionalização, usar do que tens trancado a osso no crânio. Um homem precisa tanto de amigos quanto precisa de sexo, comida ou bebida. Ser sociável por evolução. É transtornado e rabugento aquele que jaz sozinho. Moderação no uso do Álibe é o ato do que dominou o que foi dito.
Sobre Iludir
Próximo de como faz o mago, ou o ilusionista que se apresenta pra multidão. Iludir é a palavra mais correta possível, seja qual for o contexto. O Ego projeta o Eu no Todo, o Eu age por alimentar o Ego, esse cresce com o fermento da conquista, retirada do ato do bem feito. O Ego que cresce mantem o Eu forte, e projeta novas ilusões no Todo. Essas sempre mais belas, e sempre mais astutas. Não critico, analiso o natural.
A problemática é que desviaram-se os valores conforme mudava o modo de vida. O ser humano perdeu a fé em si próprio. E empurrou a força e a vontade pra coisas dignas de desprezo. Feliz daquele que sabe que os outros são seu braços.
Esqueceram de ensinar ao filhos que nascem, como iludir de forma correta e convincente. Agraciado aquele que faz um bom show.
Agora quem tem olhos voltados pra cá, aprenderá a arte de iludir, da qual alguns já nascem fazendo tão bem.
Seu palco é circular, e as tábuas do assoalho são os outros Egos e “Eu’s”, da mesma forma que esses são também sua platéia. Sustentam seu show, e o analisam. A atuação padrão do que se vê em destaque é a do Superior. Explicitada pela liderança, pela inteligência, pela força, pela influência e charme. E implicitada pela simpatia, compreensão, benevolência e humildade. Essa última ainda que proibida o tráfico no meu reino, deve ser usado como um poderoso alucinógeno, com cautela e esporádicamente. Seu uso em demasia é punido com auto depreciação; a humildade tem sua origem no culto a fraqueza como bendito. Oponho-me.
Todavia use a humildade para amenizar a dor alheia daquele que sente o calor vibrante de sua alma vitoriosa e a inveja. Cure o coração do penoso camuflando seu excelsior por um instante. Não de fraqueza, mas de maéstrica inteligência.
O fraco pode tirar o juz de seu nome, se mergulha em dor. Dor proveniente das queimaduras causadas pelo brilho excessivo do Superior. E como o cupim corroe a madeira, esse pode transformar todo seu assoalho em pó. Conto aqui com teu poder de observação pra julgar astutamente quem é digno de ser entorpecido com tua falsa humildade. Dar atenção ao cupim de mandibulas inúteis é perda de tempo, além de mal uso do enteógeno.
Dos maiores busque a superação, fantasiada de indiferença desdenhosa ilusória; cultivar-lhes a simpatia de maneira errada lhe põe em papel de aprendiz. Dos iguais busque ou rivalidade ou aliança; dos iguais sairão bons companheiros e fortes oponentes. Dos fracos cative admiração, respeito e medo.
Sobre o Ego e o Eu
As mentes de presença concomitante a minha no todo atual, acreditam, devido a semente plantada por outro homem a longa data, que o ego seja superficial, e de alguma maneira inferior ao Eu. Não sei ao certo que turvo pensamento lhe jogou isso na cabeça, tirando da nossa nascente de impulsos o título de primordial e dando esse ao Eu, mera representação do Ego no Todo.
O ser não tem percepção da própria existência até que crie seu Ego e seus caprichos, deste proveniente. A percepção de Eu é dada em relação ao mundo físico, só é viável após a construção do Ego e esse último maculado pela moral.
Estude com afinco e volte ao início dos tempos, quando começaram a ser fundamentadas certas proibições. Destrinche seus motivos, suas idéias e a força da qual se usou para se impor essa ordem. Aquele que é de um pouco de racionalidade verá que não há fundamento válido pra nada disso, e que o embasamento e o interesse proibitivo é proveniente muitas vezes, de seitas e religiões que creêm no impalpável.
É mister que o estudante seja cauteloso no momento de maculação, para não deixar que penetre lodo pelos poros do Eu, atingindo por conseguinte o Ego. Toda a falcatrua moral criada a longa data, se enraizada no Ego causará extensa dificuldade quando pensar-se em purificação, isso se com sorte não tender ao impossível.”
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