Divagações Mundânas em Delírio •- •

Por: U. Mosckedovarko

Tradução: M. Pistone

Recortes dos pensamentos mais inebriantes de Mosckedovarko fantasiados de anedotas ou desabafos.

“Tédio

Não sei lidar com o tédio e tenho raiva do sentimento de vazio, que aliás vem me acometendo muito mais frequentemente do que vinha. Tenho certeza que não tem nada à ver com o ócio, que penso eu, só mascara tudo que deveria estar doendo.”


Nota: A linguagem mais “esportiva” notada pelo leitor é devida a “desimportância” dada pelo autor enquanto escrevia esses memorandos, que, pensava ele, não seriam publicados.

“Suicídio

Suicídio não é fraqueza, pelo contrário, se usado com astúcia, tirar a própria vida pode ser genial. Não tenho tendências suicidas, mas acho que evoluí o pensamento de existência pra um nível diferente, que é basicamente poder interferir limitadamente no mundo material.”

“Tragédias e Valores

Quem dera a mim que acometesse a minha pátria uma chuva torrencial essa madrugada. Queria que o Caos se instalasse na “Grande Branca”. Alagentos nas regiões baixas, pestes e morte.
Não tenho ódio de nada nem ninguém, mas tudo isso está por ficar muito monótono. Então assusta-se e pensa, “como ele é asno e egoísta, querendo acabar com um dia lucrativo na economia do país por simples gozo”. Mas é ai que está a xarada. Eu queria que a tragédia promovesse uma grande mudança de valores nas pessoas. Tudo que se tem de pronto, pro brejo.
As pessoas iam agir por instinto mais uma vez, o estado ia ter que desdobrar pra resolver o caos; fome, dor e falta de amparo, tudo isso com certeza ia unir as pessoas da forma que era pra ser desde o começo dos tempos. Sempre que chuvisca eu penso: “agora, é ela, mude o mundo chuva, mude”, mas nunca é. Dessa vez não teria Noel, seria só destruição.”

Esse recorte é conturbado devido ao seu teor agressivo e segundo especulações foi escrito pelo autor durante uma crise de raiva e embriaguez.

“Esgueirante do Silêncio

Lá vem ele de novo. Aquele sentimento familiar que me acomete pelo início da madrugada. Já vi que a ressonância do vento no silêncio profundo junto a um monte de escuridão e tédio é o gatilho do maldito. Começa na barriga e sobre num susto para a cabeça, me faz inclinar o queixo pra cima e olhar qualquer tentativa de entretenimento com desdem. É sutilmente terrível. Já descobri o remédio que ameniza a dor, ainda por cima criando um punhado de obras misteriosas e escritas com o sangue do espírito. Me pergunto se algo respeitável e de cunho científico poderia ser tirado disso tudo. Quem sabe a “Grande Branca” venha a se orgulhar de mim?”

Muito provavelmente o termo “Grande Branca” esteja se referindo à Rússia oriental, berço e escola de Mosckedovarko

“Sentimentos Anônimos

Não dá nem pra descrever que diabos é isso.
Um misto de vontade de morrer com vontade de mudar o mundo. É como se eu fosse tão superior que não desse valor a vida, sei que ela serve pra algo bom e grande, na mesma proporção em que é egoísta, mas se não a uso da maneira certa, prefiro dar o lugar pra alguém mais entusiasmado.
É isso, poderia escrever o dia inteiro, mas sei que não vai fazer sentido pra o leitor, e como não há show sem plateia dou um caloroso adeus.”

“Sangue do Espírito

Eu me expresso melhor quando estou calado e não faço sentido”


Nota: Tido como o pensamento mais sucinto e genial do autor, alguns até dizem que a analogia: “Bons perfumes/Fatais venenos, pequenos frascos.” se encaixam perfeitamente nesse recorte.

“Equilíbrio

Passado o caos, há sincronia.”


Nota: Carta endereçada a uma paixão secreta do autor no dia da cerimônia de noivado, o que gerou espalhafate.

“Verdades não existem, mas foram feitas pra serem ditas.
Pare de tentar transformar meu mundo no modelo convencionado e decadente que você um dia idealizou. Quanto mais você tenta fazer com que ele pareça colorido e quente, mais idiota você parece pra os olhos rapinos de quem já está agasalhado. Eu rio de você o tempo inteiro, nem pode imaginar. Os outros sabem da verdade espinhenta e impactante que carrego, mas, por cavalheirismo, impedem que sinta o espeto lodoso da verdade. É, só me resta rir.”

“Pseudo Liderança

Numa guerra social sutilizada pela convivência diária ou por conversas divagativas o vencedor é sempre o macho alfa. Mas qual deles? O natural sai vitorioso até mesmo de uma batalha que perde, coisa que os genes trataram de fazer. Os pré-produzidos alfa artificiais não podem com o poder da funcionalidade da mente de um desses, ah não podem não. Segundo dado a se recolher pra ser bom juíz, é: “qual deles é dominante no plano físico”.
Respondendo essa pergunta você tem uma armadilha na mão, essa só estoura em momentos necessários ou de tensão.
O Alfa do plano mental será dominante até no momento mais pederástico de sua vida, não apoio aqui pois, quem negligencia o corpo. Digo que o macho do plano físico só pode enxergar (devido a sua programação natural) um mundo de funcionalidades que existe e responde tudo de uma maneira muito rústica. Contrariando o Todo e seus projetos insanos.
O Alfa mental por sua vez faz da rusticidade camuflagem e diversão. Mais certo e inescrupuloso que isso impossível; e é o que eu digo: “Deixem que liderem os burros até que se engatilhe o grande momento.”


“Dor e Insonia

Tem na minhas costas uma dor que me puxa para cama, como um imã levaria facilmente um grupo de frouxas limalhas de ferro. Ai eu penso: “Se eu for deitar, não consigo dormir, mas se continuar a me entreter a dor me demanda mais chibatadas”. O ódio de não poder optar por um futuro alternativo sem sofrimento. Que coisa.”

“Da Inversão

Foi produto da má interfridação de alguém que um dia tentou se eternizar toda a inversão polar de valores que o mundo sócio-mental se debate hoje. Se um dia era o brilho do ouro que encantava as moças, passou a ser a pedra seca e dura, fosca e sem cor. Proveniente da pena e do medo de terminar por assim um dia, que como numa jogada inventiva o conhecimento do homem de Nazaré foi lançado e canalizado para uma finalidade fétida. Esses fracos homens queriam era sim guardar seu futuro, sobre a segurança de que mesmo se um dia fossem tão uteis quando uma planta infértil seria alvo da compaixão. E porque não pode o ser saber sua hora de morrer?
A medicina evolui e junto com ela o amor ao ser humano, nada mais certo como nada mais contraditório. Quanto mais nos aproximamos da realidade de que barro não fomos e carne sempre sim, mais a fantasia distancia a mente da verdade. Então cria-se deus. Já que não podes conviver com a verdade de que não é importante numa escala colossal dê ao seu lugar espaço pra outro, e faça isso de forma nobre.
“E se espantou um dia a bela moça quando recebeu no seu anel de brilhante um granito poeirento e não polido, então lhe exclamou o galante que cortejava:
‘ É isso agora mulher que vale como o ouro valeu!’
Assistiu na cara rosada dos risonhos o gozo de uma vitória impossível:
‘ Agora acho no chão da rua aquilo que vale nobreza, feliz, feliz seja a inversão!’
E foi só deleite por tanto tempo. Mas e a arma pra combater o que espumava ainda pelo ouro? Que fazer?
‘ Pecam!’ – Gritou pra o povo o risonho – ‘ Peca aquele que porta da beleza demoníaca do ouro, seu brilho excessivo não é aceito pela simplicidade do granito e nunca será!’”
Então me retorcendo por entre pensamentos delirantes travei: mas como pôde a minha cidade perder essa guerra? Como pode o grande ceder ao pequeno? O ouro ao granito?
Juntaram-se mil pequenos e esculpiram os valores no maior escudo que já existiu, fizeram-se a moral do estado. Moral essa que traça seu futuro físico e psicológico, mesmo que se oponha com fé que não. Primeiro lhe arranjam as algemas e travam forte no pulso, uma corrente monetária que não deixa que defeque mais sem que pague pra isso. Depois o avatar familiar, que rompe com qualquer ideia não convencional e permite que o mais caquético tome a frente das decisões, tornando o vigor do jovem pseudo-inferior pela experiência, mesmo não correta, do mais envelhecido. E pra que tema não cumprir o fatídico lhe estapeiam com a religião, que lhe dá um inferno que pune e um céu que massageia. Dois caminhos à seguir, dor ou prazer.
“Dor na terra, prazer no céu. Prazer na terra, dor no inferno.”
Foi o que gritaram os dos valores invertidos.”

“Sobre Bocas e Ouvidos

Não já se sentiu sozinho no mundo? Pois a dádiva dos grandes pensamentos vem com a maldição de vibrar em uma frequência inaudível. És então amigo, como um morcego que canta belamente tentando encantar alguém, mas que falha pelo simples fato do espectador não ter o potencial de ouvir. Sentes sozinho, porque o que tem pra dizer não deve ser dito a qualquer ouvido, mas sim guardado pra ser atirado em pequenas e incandescentes frases e observações.
Quem sabe sua cultura não seja rara, ou seu gosto refinado ou diferente de mais? É por isso que sempre disse:
“ Gênios! Estão à um passo de serem gênios de verdade, mas nunca serão. Porque o verdadeiro atento sabe a importância de ser burro.”
O burro porém nem sabe da inteligência, e como todo ser deve fazer, empilha os tijolos de suas próprias importâncias. Macular-se sempre foi sobre bocas e ouvidos, como purificar-se sempre foi como saber do Nada. Se não for boca diplomática e pouco pomposa pra ouvidos de cupins, cairá. E cairá na única desgraça existente por todo vasto universo: a de não cumprir seu papel como animal terrestre. Sim, pra os cães é fácil para o ser humano tornou-se um teatro. Pois então, respeitar a única desgraça e ser diplomático com ouvidos bufentos, ajudará a não pelejar.”

“Sobre Ser Ínfimo

Exercício muito nobre é esse de saber sobre teu tamanho. Acredito nos Ouroboros.
Um funcionamento muito comum, quando se trata de elevação de conhecimento e personalidade. Notar o quão simples é aquele que porta real conhecimento é a chave que lhe dá abertura à enxergar um Ouroboros. Mas é a simplicidade conotada pelo medo, submissão ou crença? Não! Não é a simplicidade do granito, mas sim a do ouro que não mais olha com espanto pra própria pele por saber que tem aquilo e terá mais.
Se seguinte ao “zero” vem o “um”, que vem antes do “zero”? O “um negativo”, a representação do mesmo grau em polaridade contrária. Se pôde sentir o conhecimento contido nisso poderá entender também a verdadeira indiferença, aquela que tem como base um amor infundamentado, não aquele que é orgulhoso e mascara uma jogada de serpente.
Já pude burlar os longos caminhos e estourar o Ouroboros graças a ciência obscura do meu mundo e um pouco de empenho. Depois de sentir a Centelha Divina soube o quão Nada era eu, assim como tudo que me circunda. Sim! Tive a visão duradoura, e não estalada, de quão somos ínfimos em relação ao Todo. E de como seu tamanho e funcionamento angelical faz com que nos tornemos Nada frente a ele.”

“ Deixem que saltitem e enganem os meus Coringas, deixem. Sabem ele o segredo da vida, oh já. As vezes penso que não se aprende, mas nasce sabendo. Olhem como são belos e usam bem o Álibe, olha como sabem manejar a humildade. É brilhante a forma com que se tornam Superiores por saberem que são ínfimos. São meus Coringas que ocultam e usam o Caos a favor de si mesmos. Isso pois passado o Caos, há equilíbrio.”

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